A Viação Presmic operava as linhas que ligavam o Centro da capital às localidades iguaçuanas próximas a Miguel Couto, e entre eles o bairro de Boa Esperança desde a década de 50. A empresa Presmic com sede na Rua São Pedro, 12, Miguel Couto Nova Iguaçu tinha um histórico de incidentes e acidentes dignos de aparecer nas capas de jornal antes do registrado em 1975.

Foto: Armando Reis

Em suas duas décadas a empresa sempre esteve presente em manchetes de jornais

Em 1969, seis mascarados assaltaram a tesouraria da empresa em Miguel Couto. Armados com calibres 32 e 22, assaltaram a empresa e trocaram tiros com motoristas e trocadores, quando tentavam um novo assalto. Os bandidos após imobilizarem 10 empregados que acabavam o seu turno de trabalho, conseguiram roubar NCr$ 2 mil, além de jóias pertencentes aos empregados.

No dia 31 de dezembro de 1973, um outro veículo da empresa era protagonista de mais um acidente. Os vinte e um passageiros saíram feridos depois do coletivo ser rebocado por um trem de minério com duas locomotivas e sessenta e cinco vagões numa passagem de nível na Avenida Brasil, no bairro de Manguinhos.

Na época em que a empresa amargava esse trágico acontecimento, a Presmic já estava sendo incorporada por uma outra empresa de Nova Iguaçu. Esta operava algumas linhas municipais, em especial a Nova Iguaçu x Tinguá, e duas linhas intermunicipais.

Foto: Benício Guimarães


Ao avançar o sinal sonoro e luminoso da passagem de nível da Avenida Brasil, em Manguinhos, no dia 30 de dezembro de 1975 às 12h30m, um ônibus da Viação Presmic foi colhido por um trem de minérios com duas locomotivas e 65 vagões vazios. Apesar do impacto e dos estragos, seus 21 passageiros sofreram apenas ferimentos, retirando-se depois de medicados no Sousa Aguiar.

O trem deixava o terminal de minérios de Arará, no Bairro Alegria, pela linha da Rua do Paraíso, para Conselheiro Lafaiete, e o ônibus se dirigia da Praça Mauá com destino a Boa Esperança, em Nova Iguaçu. O veículo foi lançado contra a mureta divisória das pistas e os vagões bloquearam a Avenida, que sofreu congestionamento até 15h30m.

Desrespeito

Segundo o maquinista, Luis dos Santos, que sofreu seu primeiro acidente em 11 anos de trabalho, o trem prefixo KEW-259 trafegava a 10km/h, como é normal naquele trecho e o sinal fora acionado um minuto antes de sua passagem, conforme contou José Boaventura dos Santos que controlava o cruzamento.

Como a posição do maquinista e à direita, Luis dos Santos só pôde ver o ônibus quando já estava muito próximo dele, pois, sua visão anteriormente ficou obstruída pelas casas existentes à margem da linha, junto à Avenida. Seu ajudante, Vergillo do Carmo Morais se encontrava mais atrás e só sentiu o impacto, enquanto o terceiro tripulante da máquina, o guarda José de Oliveira Pinto, almoçava e só percebeu o choque quando a marmita saltou de suas mãos.

Colisão na passagem de Nível da Avenida Brasil –  Foto: Jornal do Brasil 31/12/1975


Como o sinal luminoso e sonoro é automaticamente acionado com a aproximação do trem, para os tripulantes da máquina e o vigia do cruzamento, o acidente só ocorreu porque o motorista do ônibus, Manuel Fernandes, não o respeitou ou, trafegando em grande velocidade, não teve tempo de frear. Essa explicação foi confirmada por alguns populares, como o Sr. Neri Cordeiro, que viram o choque e socorreram as vítimas.

Congestionamento

As locomotivas 3 160 e 3 603 sofreram ligeiras avarias no corrimão lateral e fronteiro, mas o ônibus, de placa FI-0446, de Nova Iguaçu, ficou quase inteiramente destruído.

Além do choque, ele foi lançado contra o muro divisório da pista, ficando imprensado de lado pelos vagões, que bloquearam as duas pistas no sentido da Zona Norte. As duas locomotivas cruzaram as duas outras pistas, mas quase de imediato foram movimentadas em direção a Manguinhos para permitir a retirada dos feridos do ônibus.

Nessa posição, o transito em direção à Zona Norte ficou totalmente interditado até as 15 horas, quando os vagões foram retirados. A essa hora, contudo, o congestionamento chegava até o Cemitério do Caju, pois os veículos passavam da pista interna para a externa através de uma abertura feita numa fileira de pré-moldados e subiam na contramão o Viaduto Ataulfo Alves em direção a Benfica e Bonsucesso, de onde retornavam a Avenida Brasil.

Mais tarde, só a pista interna permaneceu fechada para facilitar a retirada do ônibus, mas mesmo assim o transito continuou prejudicado porque a pista externa, na passagem de nível, sofre um estrangulamento devido às obras e escoramentos da ponte em construção.

Apesar do pouco volume de tráfego no sentido Zona Norte- as suas pistas também ficaram congestionadas devido ao grande número de pedestres atraídos para o local e à curiosidade dos motoristas, que chegavam a parar e descer dos carros para ver o acidente de perto.

Viaduto Eng°. Roberto Khede – 1974. Foto: Estradas de Ferro do Rio de janeiro

O Viaduto Engenheiro Roberto Khede, sobre a movimentada Avenida Brasil foi inaugurado em 13 de setembro de 1974 para eliminar a perigosa passagem do ramal que dava acesso ao pátio do Arará. Com a construção do viaduto, o acesso ao bairro agora corta o bairro popular do mesmo nome, passando sob o viaduto da Linha Vermelha e seguindo em direção à estação Herédia de Sá, onde se encontra com a Linha Auxiliar.

Outra tragédia envolvendo um coletivo da Presmic

Na manhã do dia 25 de março de 1975, um veículo da Transportes Presmic, empresa que operava a linha “Boa Esperança x Praça Mauá” mergulhou no rio Acari depois de perder o controle sobre si mesmo, capotar e quebrar a mureta de segurança, causando a morte de 25 pessoas. Em 1977, um acidente parecido ocorreu no mesmo local com um ônibus da Turismo São José, matando quinze passageiros.

Coletivo sendo içado – JB 26/03/1975

Vinte e cinco pessoas morreram ontem cedo, quando um ônibus da linha Jardim Boa Esperança x Praça Mauá caiu no canal Acari, provavelmente por excesso de velocidade. Um dos sete sobreviventes defende o motorista, Alexandre Cardoso da Rosa, encontrado entre os mortos. O desastre foi na altura do quilômetro 2 da Rodovia Presidente Dutra, havendo ainda a possibilidade de cinco outros corpos terem sido arrastados pelas águas do Canal Acari, são as primeiras consequências do desastre ocorrido às 8h 30m, com o ônibus chapa FA-0449 (RJ), da empresa Presmic.

O coletivo fazia a linha Boa Esperança x Praça Mauá e trafegava na direção da Av. Brasil quando desviou-se de um Volkswagen que ia à sua frente — informam testemunhas — perdeu a direção, bateu na mureta sobre a ponte, passou para a pista de subida, arrancou 10 metros de grade e despencou no canal.

O 2º sargento Cleide Rodrigues de Carvalho, do 12º Batalhão da PM, disse que dirigia seu carro com destino a São João de Meriti e percebeu o ônibus, em grande velocidade, em sentido contrário.
Acrescentou que o veículo passou a correr em ziguezagues até bater na mureta de proteção, trocar de pista e cair no canal. Cleide afirmou que o motorista dirigia em velocidade excessiva, tanto que o carro continuou a correr mesmo depois de bater na mureta.

Foto: Armando Reis

O Sr Osvaldo dos Santos, de 25 anos, morador na Rua Antônio Azevedo Neto, em Nova Iguaçu, disse que não sabia a que atribuir a queda do ônibus no rio, “pois o motorista não vinha correndo muito; só se a barra de direção partiu”. Ele entrara no ônibus na altura do Jardim Tropical e foi atirado longe quando o carro bateu na mureta de proteção sobre o canal.

Inúmeras dificuldades tornaram demorado e penoso o içamento do ônibus número de ordem 114 — onde 21 corpos ficaram retidos durante horas. A remoção dos cadáveres para o Instituto Médico-Legal foi agravaria pelo choque de um dos rabecões contra a traseira de um ônibus na Avenida Brasil.

Resgate

A rapidez do acidente não permitiu qualquer reação por parte dos passageiros, dos quais somente sete conseguiram escapar, auxiliados por populares que imediatamente acorreram ao local, porque o veículo submergiu lentamente e deu tempo para que fossem arrancados pela janela. Muitas pessoas se atiraram na água e tentaram sem êxito salvar outros passageiros.

Coletivo dentro do Canal Acari – JB 26/03/1975

Os primeiros socorros foram prestados por componentes da Operação Alfa, pertencente ao Instituto de Pesquisa Rodoviária do DNER, e pouco depois chegavam ao local patrulhas da Policia Rodoviária — que providenciaram a remoção dos sobreviventes para o Hospital
Getúlio Vargas e a Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima, em Nova Iguaçu. Duas viaturas foram deslocadas para a entrada da Rodovia e desviaram o tráfego por Coelho Neto, porque já começava o engarrafamento.

Içamento

As primeiras tentativas de içamento do veículo foram feitas por bombeiros do quartel do Méier, que desistiram e recorreram aos quartéis Central, de Campinho e Anchieta porque não haviam levado equipamento apropriado. Com o novo grupo chegou uma equipe de mergulhadores. A chuva e a multidão dificultaram o trabalho dos bombeiros, que depois de experimentarem quatro guindastes, conseguiram içar o coletivo à altura de cinco metros.
Galhos de árvores forçaram o eixo e o diferencial, que acabaram por se partir, e o carro novamente mergulhou no canal.
Na tentativa seguinte o veículo foi retirado da água, com 21 corpos no interior — quatro outros haviam sido retirados anteriormente pelos mergulhadores: o do motorista, o do cobrador Sebastião Fernandes e dois não identificados.

Coletivo sendo transportado. Foto: JB 26/03/1975

Afogados

Para o perito Santiago, do Instituto de Criminalística, todos morreram por afogamento, apesar de o teto do veículo ter cedido e imprensado algumas vítimas contra os assentos.
Pelas informações chegadas ao conhecimento do comissário Marcelino, da 39ª DP, quando o ônibus passou pelo último posto de fiscalização da empresa — 2km antes do local do desastre — transportava 37 passageiros. Os bombeiros admitiram que os cinco corpos restantes podem ter sido arrastados pela correnteza durante a primeira tentativa do içamento do veículo.

Moradores acusam donos da empresa

Os moradores do Jardim Boa Esperança, em Nova Iguaçu, acusam a Empresa Presmic S/A, de ser a principal responsável pelo acidente na Via Dutra. Segundo depoimento de um menino do bairro, quo viajou um pequeno trecho no ônibus acidentado, o motorista havia reclamado dos freios “quo não estavam dando ar”, e fez vários testes antes de partir.

Os carros da Presmic estão em péssimo estado de conservação, sujos e barulhentos, sem oferecer o mínimo de segurança ou conforto aos passageiros. As linhas mantidas pela em- presa não obedecem a horários, e todos os ônibus viajam com lotação acima da capacidade permitida, O Comandante Celso Franco, que esteve na Av. Brasil, prometeu iniciar uma rigorosa campanha contra os coletivos da Baixada fluminense que, além de não preencherem as exigências básicas para circular, são recordistas em infrações de transito.

Foto: Antônio Souza Guedes

Viagem perigosa

O desejo de “boa viagem”, gravado nas portas dos ônibus da Presmlc, não corresponde á realidade enfrentada por milhares de operários que diariamente deixam o bairro de Boa Esperança para ganhar o salário no Rio. Na hora do rush. à tarde, o percurso da Praça Mauá até aquele bairro de Nova Iguaçu é cumprido em 1h20m, cada carro com mais de 70 passageiros, que pagam uma passagem de CrS 2,30.

Os motoristas, exaustos pelo trabalho das horas extras que diminuem o repouso entre as jornadas, imprimem alta velocidade aos ônibus, principalmente quando alcançam a Rodovia Rio-São Paulo. Há alguns meses, um desses ônibus preciptou-se para fora do viaduto sobre a linha de trem na altura de São João de Meriti. Ao ser fechado por outro também da Presmic, ficando com duas rodas sobre o abismo. Uma única porta para saída e entrada de passageiros e o excesso de lotação impedem que os fiscais penetrem no interior dos veículos, como deveriam fazer duas vezes em cada viagem.

Bairro abandonado

Os comerciantes de Jardim Boa Esperança fecham suas casas antes das 19h, devido aos constantes assaltos a mão armada. A população reclama da falta de policiamento e do abandono a que está entregue: ruas sem iluminação, esgotos e calçadas. Os ônibus da Presmic, depois de fazerem o acesso no Km 14 Via Dutra, cortam os Bairros de Monte Líbano, Jardim Tropical e Caioaba, todos com os mesmos problemas de Jardim Boa Esperança.

Na noite do ocorrido, muitos moradores do bairro não estavam em suas casas. Continuavam no local do acidente, à procura de parentes que provavelmente estariam no ônibus da linha 114.
O gabinete do diretor do Detran informou que foram registradas, durante a Operação Fluidez, várias irregularidades cometidas pelos ônibus que ligam a Baixada ao centro do Rio,  entre elas, o uso de buzina e as paradas fora dos pontos.

Foto: Welliton Perissé


DNER ainda fiscaliza no interior do Estado

Os ônibus entre o Rio e a Baixada Fluminense ainda estão sujeitos à fiscalização do DNER — a quem compete apenas o transporte interestadual — por força de convênio assinado com a Secretaria de Transportes do Estado do Rio, que só assumirá o serviço quando puder montar uma estrutura adequada de ação.

As normas federais para transporte rodoviário de passageiros são muito rígidas, mas apenas no papel, uma vez que o DNER — sempre sob a alegação da impossibilidade de contratar pessoal — ainda não conseguiu montar uma estrutura de fiscalização eficiente. Agora, na fase de transição, a ação fiscalizadora ainda está mais suave.

A fusão

Antes da fusão, o ex Estado do Rio fiscalizava as linhas intermunicipais através de um setor ligado ao Departamento de Estradas de Rodagem. Na ex Guanabara, a fiscalização de serviços urbanos era feita através da Secretaria de Serviços Públicos. Com a fusão, foi criado um novo setor, novamente ligado à Secretaria de Transportes, dentro da estrutura do DER.

Foram baixados os atos legais respectivos, através dos quais procuravam-se induzir conceitos de responsabilidade efetiva na operação do transporte coletivo e proteção de canais indicando o Secretário de Obras e Serviços Públicos, Sr Hugo de Mato», que no dia do acidente à tarde percorreu às margens do canal do Mangue. ao longo da Avenida Presidente Vargas.

Feita a inspeção, declarou não ter idéia precisa da solução que adotaria mas que deveria decidir-se já na próxima semana. O Detran exigiu que as empresas da Baixada se enquadrem na legislação do antigo Estado da Guanabara terão de substituir seus veículos após sete anos de uso e instalar os limitadores de velocidade imediatamente.

Os empresários do Rio e RJ, José Maria Jardim Rocha, presidente da Presmic e do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de Nova Iguaçu e Caxias. Juntamente com Paulo Silva, presidente da Federação das Empresas dos antigos Estado da Guanabara e Estado do Rio, foi convocado para demorada reunião com o Comandante Celso Franco, à qual também compareceu o Sr Almir Dantas Rabelo, presidente do sindicato das empresas cariocas.

Do encontro, transpirou que o Detran exigiria a imediata instalação dos limitadores, a adoção de veículos de duas portas e vistoria da Baixada foram convocados pelo Comandante Celso Franco e alertados para as novas ordens:

O Detran quer relação semanal de todos os ônibus em que os limitadores forem instalados. Com o desastre no Canal do Mangue, já atinge a 50 o número de ônibus acidentados este, ano. Antes da reunião, o presidente da Presmic disse que dos 60 ônibus de sua empresa, apenas 22 eram de uma porta, e que não esperava medidas drásticas contra as empresas por parte do Detran. O Comandante Celso Franco confirmou que exigira das empresas que enviem ao Detran uma relação semanal dos ônibus em que forem instalados os limitadores.
Na Mecânica Otolini, a informação era de que não tinha havido procura excepcional do aparelho. Da posse de Celso Franco, só 10 empresas procuraram instalar o limitador.

Foi assinado pelo Governador Faria Lima o decreto que extingue o Detran, subordinado à Secretaria de Segurança e cria o Detran-RJ, autarquia com personalidade jurídica, autonomia administrativa, patrimônio e gestão financeira próprios. O decreto prevê que a ação administrativa do Detran se exerça “dentro dos mais adequados padrões técnicos de engenharia de transito, pelo planejamento, direção e controle da circulação de veículos.

Foto: Marinaldo Júnior

O ponto final na história da Presmic

Em 1975, após protagonizar várias manchetes em jornais, a empresa é absorvida pela Transportadora Tinguá, que na época passava por uma nova reestruturação.
A Transportadora Tinguá operava linhas municipais em Nova Iguaçu. Com a aquisição da Presmic, a Tinguá criou a Viação Rival e a Rio Lisboa, onde houve a divisão das linhas e setores.

Transportadora Tinguá > Passou a operar apenas no setor intermunicipal (Linhas ex Presmic)
Rio Lisbôa Transporte e Turismo > Belford Roxo x Bonsucesso (ex Tinguá)
Rival Transportes > Linhas Municipais de Nova Iguaçu (ex Tinguá)
*Em 1975, a Viação Rival foi extinta e as linhas passaram a ser operadas pela Elmar, extinta em 2008.

Linhas operadas pela Presmic

Boa Esperança X Central
Jardim Esplanada X Central
Miguel Couto X Central
Vila de Cava X Central
Miguel Couto X Praça Mauá
Vila de Cava X Praça Mauá

Fonte:
Jornal do Brasl, Fichas de Ônibus, Cia de Ônibus, Estradas de Ferro do Rio de janeiro, Rede Ferroviária Federal S/A, TRANSONIBUS e O Rio de Antigamente